Você passa o dia se forçando a fazer coisas que não quer?

Nunca esquecerei algo que ouvi de uma pessoa muito próxima alguns anos antes de ela falecer: “Às vezes, tenho vontade de largar tudo e simplesmente sair andando pela rua, com a roupa do corpo, sem direção. Ir embora e não voltar mais.”

Essa foi uma visão bastante impactante para uma época em que eu não fazia ideia do que era ter esse sentimento. A ideia de chegar a certa altura da vida e pensar nisso é algo que, ao mesmo tempo, me assombra e me motiva a buscar a autorrealização. Afinal, a vida é muito curta para ser tão infeliz.

Largar tudo x não fazer nada

Apesar de ser uma escolha, a melhor solução pode não ser largar tudo o que não queremos mais fazer e seguir em frente sem olhar pra trás. Não que seja condenável que se faça isso, mas, se for para fazê-lo, que seja com a consciência do quanto as possíveis consequências dessa decisão podem entrar em choque com os seus valores e planos futuros.

Tenho acreditado cada vez mais que existem alternativas nesse largo espectro que contempla, numa ponta, largar tudo e, na outra ponta, deixar tudo como está. Por muito tempo, via só essas duas opções. Hoje acredito que existe um universo de possibilidades. E também vejo um universo de soluções inovadoras para as nossas mentes tão acostumadas a pensar dentro da própria caixa.

O que realmente quero?

Um dos maiores problemas pode estar muito antes da fase de pensar em soluções: podemos estar tão perdidos que nem sabemos o que queremos, enquanto somos soterrados pelos afazeres diários. Já nos acostumamos tanto a “ter que” fazer tantas coisas que não importa mais o que queremos, porque parece que nunca vamos conseguir mesmo.

Nos últimos anos, tenho feito um trabalho pessoal muito forte no resgate das coisas que quero para minha vida. Uma dica rápida é prestar atenção na inveja: ela nos aponta para o que queremos ou, pelo menos, para qual necessidade está na hora de olhar.

Querer é a própria chama da vida. O desejo nos mostra que há algo vivo dentro de nós. Se não quero mais nada, poderia ser mais feliz como um robô que executa tarefas apenas porque “tem que”.

O que quero x escolhas difíceis

Será possível viver apenas fazendo coisas que queremos e não coisas que temos que fazer? Ou, pelo menos, será possível termos consciência das escolhas difíceis que fizemos, mantendo a paz interior com o foco no objetivo maior que queremos cumprir? Essa ideia, que encontrei na comunicação não-violenta, é um tanto quanto tentadora e provocadora. Será possível mesmo?

É claro que não é tão simples. Há escolhas que são extremamente difíceis, quase impossíveis. Há situações em que as alternativas trazem grandes perdas e você não vê como conseguir todos os ganhos que gostaria. E você também não quer escolher nenhuma das perdas. Então se torna um jogo de “qual é a menor perda que eu posso suportar?”

Ou ainda, algumas alternativas exigem coisas que você não está disposto a fazer ou abrir mão. Então vira um jogo de “que situação eu não estaria disposto a passar de forma alguma (pelo menos, por enquanto)?”

Entendendo meus limites

Se as possibilidades parecem muito difíceis, talvez as coisas não precisem acontecer de repente. Podemos dar pequenos passos conforme nossas pernas alcançam. Afinal, quem está apostando uma corrida? Podemos começar a caminhar na direção da mudança de pouco em pouco, até ganhar mais fôlego.

Podemos também respeitar os nossos limites em relação às tarefas que escolhemos fazer e que não são do nosso agrado (mas escolhemos por motivos que são mais importantes no momento ou porque elas nos levarão a algo que realmente queremos e que exige muito esforço).

Uma chave é perceber os meus próprios limites entre: 1) coisas que faço sem problemas; 2) coisas que exigem certo esforço, mas tenho disposição de tentar; e 3) coisas que não quero fazer de jeito nenhum ou que não aguento mais. Ultrapassar demais os próprios limites na área de “não quero fazer de jeito nenhum ou não aguento mais” não vem sem consequências. (Para mais sobre essa ideia, veja o trecho de um curso em inglês).

Não fazer nada também é uma escolha

Podemos não dar nenhum passo. Podemos não mudar nada por um tempo. Essa também é uma escolha. Acho que está tudo certo quando temos consciência do que estamos abrindo mão e do que estamos garantindo a cada ação.

Quando tenho mais consciência das minhas escolhas, saio da posição de vítima da vida e passo a me apoiar pelos caminhos que não são tão fáceis quanto eu gostaria. Porque tem horas que só precisamos de um pouco de autocompreensão e de paciência com nós mesmos.

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Recomendações: o que li, assisti e estudei na semana (16 a 22/06/2019)

Essa semana tirei uma miniférias do trabalho e passei os dias consumindo muito conteúdo. Logo, a lista está grande:

Série Mudança Social – Libertação em três capítulos (em inglês)

Esse curso com Miki Kashtan traz uma perspectiva histórica de como as relações humanas passaram a se basear na troca e acumulação, tornando o que antes era uma abundância natural em excedente artificial e escassez manufaturada. A palestra termina com alguns exercícios de como praticar o restabelecimento do fluxo natural da sustentabilidade.

Comunicação não-violenta e paz interior (em inglês)

Outro vídeo de Miki Kashtan com interações muito tocantes sobre paz interior em um curso de Comunicação Não-Violenta.

Tweet de Miki Kashtan 

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“O verdadeiro diálogo apenas pode acontecer se eu entrar na conversa com a disposição de ser mudado por ela. Se eu não tenho a disposição de mudar, de ser afetado suficientemente para considerar opções novas para mim, então por que eu vou esperar que a outra pessoa mude?”

Marshall Rosenberg canta “Palavras são janelas ou são paredes” (em inglês)

Deixo a tradução dessa poesia, de Ruth Bebermeyer, cantada, no vídeo, pelo sistematizador da Comunicação Não-Violenta:

Sinto-me tão condenada por suas palavras
Tão julgada e dispensada
Antes de ir, preciso saber:
Foi isso que você quis dizer?
Antes que eu me levante em minha defesa,
Antes que eu fale com mágoa ou medo
Antes que eu erga aquela muralha de palavras
Responda: eu realmente ouvi isso?
Palavras são janelas ou são paredes
Elas nos condenam ou libertam
Quando eu falar e quando eu ouvir,
Que a luz do amor brilhe através de mim
Há coisas que preciso dizer,
Coisas que significam muito para mim.
Se minhas palavras não forem claras,
Você me ajudará a me libertar?
Se pareci menosprezar você,
Se você sentir que não me importei,
Tente escutar por entre as minhas palavras
Os sentimentos que compartilhamos.

Como se comunicar de forma autêntica?

Entrevista honesta e autêntica com a coach e bióloga Carol Nalon, especialista em Comunicação Não-Violenta.

A morte é um dia que vale a pena viver

Nesse TED Talk, uma médica que trabalha com pacientes terminais dá uma perspectiva tocante sobre a vida, a morte e o papel de cuidar dos seres humanos no meio disso.

O mundo líquido e a felicidade por Schopenhauer

Vídeo que me fez refletir sobre as opções infinitas que temos à disposição hoje, a ilusão de felicidade e escolha que elas vendem e o vazio que elas de fato entregam.

A maior crise financeira global está por vir

Palestra muito embasada do economista Fernando Ulrich, para pensarmos no futuro que os Bancos Centrais estão construindo ao redor do mundo.

A fantástica troca de conchas entre caranguejos (em inglês)

Vídeo da BBC Earth que mostra a organização social dos caranguejos na hora de trocar suas conchas e que me fez refletir sobre o fluxo da natureza.

Como os chimpanzés revelam as raízes do comportamento humano (em inglês)

Esse vídeo da BBC Earth me fez refletir sobre o quanto nos distanciamos de um comportamento social dos primatas e o quanto isso trouxe ganhos e perdas para a humanidade.

Cresci na Igreja Batista de Westboro – eis por que saí 

O TED Talk traz uma ex-ativista de uma das igrejas mais controversas americanas. É interessante para pensar sobre as armadilhas de ficarmos presos em nossas bolhas radicais e como evitar que isso aconteça.

Pós-graduação em Neurociências e Comportamento na PUCRS Online

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Esse curso me apareceu como uma publicidade do Facebook e realmente despertou meu interesse, mas escolho não o fazer agora. No entanto, fica a dica para quem quiser saber mais. O curso conta com grandes nomes da área (um elenco inacreditável de professores).

Curso “De bem com o dinheiro” , do Moporã

Tudo o que vem do Moporã é de alta qualidade em questão de desenvolvimento pessoal e não é diferente com esse curso. Por um valor bem acessível, você tem acesso a reflexões muito profundas sobre a psicologia da nossa relação com o dinheiro, com exercícios práticos. É um curso curto, direto ao ponto e transformador.

Vídeos de humor e fofuras

Porque felizmente a vida não é feita só de coisas sérias 🙂

Minha Husky prometeu desde o primeiro dia que sempre protegeria o meu bebê

7 sons que os gatos fazem e o que eles significam (em inglês)

Dois gatos e um inimigo em comum

Como um bicho-preguiça toma banho

Máquina do tempo de um minuto – curta-metragem (em inglês)

Friends: aquele em que todos eram gays (exceto a Mônica) – compilação em inglês

Frases inspiradoras de Michael Scott (série The Office) – compilação em inglês

O silêncio faz parte da conversa ou elefantes não são animais de estimação

Aceitar o silêncio não é uma tarefa fácil. Conviver harmonicamente com esses espaços vazios era um grande desafio para mim. Talvez porque, enquanto eu ou outra pessoa falávamos, as minhas vozes internas eram sobrepostas pelos ruídos. No silêncio, no entanto, essas vozes gritavam – e gritavam coisas que eu não queria ouvir.

Hoje me vejo cada vez mais propensa a ficar em silêncio em uma conversa, em me permitir entrar no universo para o qual a outra pessoa me convida enquanto fala. A fala de uma pessoa abre uma janela para uma dimensão que eu não conheço, algumas vezes uma dimensão com a qual eu me relaciono, outra vez não – as duas possibilidades sendo igualmente fascinantes. Essa viagem interdimensional acontece especialmente quando a outra pessoa realmente abre uma janela para a sua alma. Mas, mesmo quando o outro fica na superficialidade do cotidiano, ainda é possível ver uns lampejos de brilhos estelares a milhões de anos luz nas profundezas dos seus oceanos.

Isso não quer dizer que eu não me perca nos meus próprios pensamentos enquanto o outro fala e que eu não faça uma viagem para um lugar completamente diferente. Felizmente,  tenho consigo voltar mais rápido dessas viagens e estar mais presente numa verdadeira escuta. E isso ainda é um grande desafio para mim: realmente ouvir o outro e não os meus próprios pensamentos enquanto o outro fala.

Durante muito tempo, eu fugia do silêncio como quem tinha uma fobia, um pavor que me tomava a alma. Lembro de ficar verdadeiramente angustiada, buscando palavras que dissessem qualquer coisa ou rezando para que a outra pessoa dissesse qualquer coisa. Qualquer coisa para que não precisássemos olhar para o elefante na sala. E ele era tão evidente e tomava cada vez mais espaço e eu me desesperava, pois não via como tirá-lo dali. Enquanto isso, ele crescia e me sufocava.

Não que hoje eu não tenha mais um elefante na minha sala, mas estou mais disposta a vê-lo. Precisei quebrar algumas paredes para que vivêssemos com mais espaço. Mas essa foi uma solução de curto prazo. Eu sei que elefantes não devem morar dentro de casas e eu sei que, em breve, o meu elefante vai embora, por mais difícil que seja deixá-lo ir e pagar o preço da vida que eu quero viver.

Aceitar a angústia, o sofrimento e as imperfeições como parte inevitável da experiência humana, aceitar que está tudo bem não estar tudo bem e ter gratidão pelos momentos de respiro – aqueles pequenos momentos em que cada detalhe faz a vida ser boa – têm me feito saborear o silêncio de simplesmente existir, deixar os pensamentos virem e observar.

O poder da presença entre pessoas que compartilham o mesmo espaço, sem dividir a sua atenção com nenhuma distração, pessoas que, por alguns segundos, não deixam que as palavras as levem para outro canto, talvez seja a mais profunda conexão que almas possam ter.

Sobre se reencontrar consigo mesmo

Muitos de nós desde pequenos aprendemos que o nosso jeito de ser e de fazer as coisas não era adequado, segundo o padrão de outras pessoas. Havia uma medida do jeito certo de ser e o nosso ou era deficiente ou exagerado em relação a essa medida, seja em termos físicos ou de comportamento. Então crescemos ouvindo que éramos magrinhos demais ou gordinhos demais, estudiosos demais ou baderneiros demais, organizados demais ou relaxados demais, quietos demais ou inquietos demais, lentos demais ou rápidos demais, faladores demais, barulhentos demais, sensíveis demais – ou de menos. E, para cada uma dessas coisas havia um modelo: “Por que você não é igual a(o) seu(sua) irmão/irmã/primo/prima, que é tão… (insira o adjetivo que quiser)?”. E, entendemos na nossa cabecinha de criança, que deveríamos nos ajustar ao que os outros queriam, sob a pena de não sermos aceitos e não sermos amados. Não valia a pena ser o que éramos, porque o que éramos era demais ou era de menos, não era na medida certa.

O trágico é que as pessoas que nos disseram isso, elas também ouviram isso e sofreram com isso (às vezes muito mais do que nós), mas, como foi a única coisa que aprenderam, era a única que sabiam passar adiante. Afinal, “educar é ajustar a criança ao mundo”.

(A minha ideia aqui não é culpar ninguém, é apenas apontar a origem de um ciclo que pode ser infinito até que estejamos dispostos a quebrá-lo. Cada um tem seus motivos para fazer o que faz e cada um tem seus motivos para reagir como reage. Sou completamente a favor de cada um assumir a responsabilidade por ter lidado da forma como lidou com as situações que a vida lhe apresentou. A vida acontece a todos nós e cada um lida com ela de uma maneira e não se pode responsabilizar nenhuma outra pessoa por isso.)

Enquanto crescia, sempre tive muita resistência a me adaptar ao que as pessoas esperavam de mim. Por fora, criei uma cara de submissão, por conta da minha antiga aversão a conflitos, mas por dentro, lutei com unhas e dentes pelo direito de não deixar de ser eu mesma. Porque fica difícil se reconhecer na frente do espelho depois que você mudou tanta coisa em si para agradar aos outros e ganhar a aceitação dos outros. Sempre tinha essa vozinha interna que me dizia: “Por que eu tenho que mudar porque fulano quer?”.

No entanto, com os anos, a gente vai cedendo e vai mudando ali e aqui, porque, lá no fundo, existe aquela crença de que não seremos amados e aceitos se não formos na medida certa do que esperam. A gente resiste, mas termina cedendo uma hora ou outra, porque essa é uma luta muito cansativa para se ganhar todas as batalhas.

Depois de alguns anos, de fato, você não se reconhece mais no espelho. Você não entende o que sente, você não sabe o que quer. Você só age para que todos estejam felizes com você: parece que isso é que vai trazer alguma paz, finalmente. Então, você cede em troca de algumas migalhas de aceitação e amor – sempre insuficientes essas migalhas para saciar a grande fome causada por um buraco negro de carência de si mesmo. Sentimos falta de nós mesmos, não sabemos mais quem somos e não sabemos nem por onde começar a nos procurar. E, por conta dessa distância de nós mesmos, nos vemos tomados por raiva, tristeza, angústia, ansiedade, culpa, vergonha.

A estratégia mais eficaz que eu tenho aplicado de reencontro com aquela criança interna, antes que ela tivesse mudado pelo mundo, é o autoconhecimento e a autoaceitação. Antes de nos revoltarmos contra os outros que ainda exigem que sejamos como eles querem, é preciso que nós mesmos saibamos “vender esse peixe”; é preciso que nós mesmos acreditemos nessa ideia de que vale a pena ser quem somos, com nossas imperfeições e nossas supostas demasiadas quantidades de alguma caraterística. Primeiro precisamos nos aceitar e parar de nos forçar a ser diferentes. Então, podemos dar limites aos outros.

E se os outros tiverem um problema com essa nova atitude? Bem, aí é literalmente um problema dos outros. Quando você aceita que você não tem um problema em ser como é, quem tem um problema com quem você é são literalmente os outros. Quando você entra em contato com essa profunda necessidade de autoaceitação e amor-próprio, já não importa muito o que vão achar disso. Na verdade, acho que as pessoas passam a te aceitar também, porque elas veem que você está mais equilibrado e mais em paz.

Quero dizer com tudo isso que não devemos mudar nunca? Longe de mim! Acredito que devemos mudar apenas quando queremos, quando temos comportamentos, pensamentos ou sentimentos que vemos que nos fazem mal ou fazem mal a outras pessoas. Mas a vontade de mudar precisa partir de dentro, não de um comentário ou exigência externa. Você precisa determinar para si, espontaneamente, que esse jeito de ser não é mais compatível com o que você quer para a vida, porque isso está gerando conflito com outras necessidades internas e, então, buscar formas de aperfeiçoar algo em si.

Veja que se não acho que devamos permitir que outros tenham o poder de mudar algo em nós, também não acho que devamos mudar algo no outro. O que fazer então? Aceitar e amar o que o outro é e não o que gostaríamos que fosse. Mas como seremos capazes de fazer isso com o outro se não fazemos nem conosco mesmos?

Além disso, acho saudável se libertar da ideia de que alguém será capaz de nos trazer a completude desse vazio interno que a falta de nós mesmos nos faz. Esse é um fardo muito pesado para qualquer pessoa carregar: o de nos fazer felizes, seja um companheiro(a), pais, filhos, amigos ou família. Assim como é de nossa responsabilidade as reações que temos diante do que nos acontece, também está na nossa alçada preencher o nosso próprio vazio interno, reencontrando e aceitando a pessoa que realmente somos.

Por conta de tudo isso, acho interessante um trabalho profundo de autoconhecimento: saber os seus limites, reconhecer seus sentimentos, entender seus mecanismos psicológicos, respeitar e honrar a sua história de vida (e daqueles que vieram antes de si e que possibilitaram a sua vida), suprir suas necessidades, viver seus sonhos, traçar seus objetivos e comunicar seus desejos. E, acima de tudo, saber que não existe um jeito certo ou errado de ser, existe apenas o que é. E o que você já é será sempre o suficiente.

Como estou encontrando um caminho para superar a ansiedade

Uma das características com a qual eu me identifico muito em relação ao transtorno de ansiedade generalizada – que eu não sei se é o que tenho, mas essa característica eu tenho – é o sentimento de não conseguir controlar os pensamentos negativos. Mais especificamente, segundo o DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5.ª edição, feito pela Associação Americana de Psiquiatria e usado por profissionais da área de saúde):

“As características essenciais do transtorno de ansiedade generalizada são ansiedade e preocupação excessivas (expectativa apreensiva) acerca de diversos eventos ou atividades. A intensidade, duração ou frequência da ansiedade e preocupação é desproporcional à probabilidade real ou ao impacto do evento antecipado. O indivíduo tem dificuldade de controlar a preocupação e de evitar que pensamentos preocupantes interfiram na atenção às tarefas em questão. Os adultos com transtorno de ansiedade generalizada frequentemente se preocupam com circunstâncias diárias da rotina de vida, como possíveis responsabilidades no trabalho, saúde e finanças, a saúde dos membros da família, desgraças com seus filhos ou questões menores (p. ex, realizar as tarefas domésticas ou se atrasar para compromissos).”

Na época em que li isso para o meu trabalho de conclusão de curso da pós-graduação que estou fazendo, pareceu que li a descrição da minha vida. Vale ressaltar que esse não é o único critério de diagnóstico do transtorno de ansiedade generalizada, havendo uma série de outros requisitos que devem ser preenchidos antes de se ter esse diagnóstico (que deve ser feito por um profissional!). Ainda assim, a descrição dessa característica de preocupação excessiva e incontrolável coube muito para mim, mesmo que eu talvez não tenha transtorno de ansiedade generalizada.

Quero ressaltar também que o medo, a ansiedade e preocupações são estados naturais e todos experimentamos isso em algum nível, dependendo das situações. Mas aqui estou falando da ansiedade excessiva e desproporcional, como marquei no texto.

Felizmente, eu não vivo mais nesse mundo de ansiedade exagerada 24 horas por dia, como vivia antes. Mas, às vezes, me vejo de volta a ele, quando começo a ter esses pensamentos repentinos e incontroláveis sobre possíveis futuras tragédias e, às vezes, sobre os piores momentos passados da minha vida. Eu já vinha passando cerca de um ou dois meses sem viver assim. Quando você se desintoxica de algo, tem uma hora que ele começa a ganhar vida de novo e a se rastejar para te pegar com seus dedos longos e sombrios, mas aí você já está alerta. Já não é mais tão fácil cair em suas garras.

Hoje quero falar sobre a minha caminhada para fora desse mundo de ansiedades, preocupações e medos exagerados. Porque se eu estou começando a superar isso, eu acho que você também pode.

Tudo começa com o reconhecimento de que é preciso mudar, com o reconhecimento de que esse não é um bom estilo de vida, que não é legal viver assim, fazer isso consigo mesmo e com os outros à sua volta (sim, as pessoas à sua volta sofrem com esse comportamento também).

Por incrível que pareça, muitas pessoas defender com orgulho a sua ansiedade, preocupações e medos exagerados, como se isso fosse uma parte indissociável da sua personalidade. Às vezes, nos sentimentos assim em relação aos nossos problemas e questões mais difíceis: se eu deixar de ser essa pessoa ansiosa, quem eu serei? Às vezes, é difícil abrir mão de algo que nos definiu por tanto tempo. Acredito que podemos abrir mão dessa falsa identidade associada a coisas que nos fazem mal e tomar posse da nossa verdadeira identidade, que está escondida por trás das ruínas do que construímos. Somos muito mais do que as nossas limitações: somos uma luz que brilha muito forte e precisamos nos apoderar dela.

(Eu sei que isso parece um papo pegajoso de autoajuda, mas eu realmente acredito nisso e acredito pela minha caminhada, não porque me disseram. Convido você a fazer sua caminhada e passar a acreditar isso sobre si mesmo também.)

Depois de reconhecer que é preciso mudar, devemos nos comprometer em fazer isso. E essa é uma nova fase, que pode durar um tempo. Se comprometer em mudar é um grande passo, que, às vezes, demora a ser dado. Quando você estiver pronto, você vai encarar a batalha e talvez precise de alguns empurrões para isso. Faz parte do nosso comportamento, como seres humanos, recusar os chamados para a mudança, mas uma hora ela ocorrerá (às vezes, mesmo sem que a gente queira).

De fato, acredito que um ou mais profissionais da área terapêutica são essenciais para darem suporte nessa caminhada. Quem sofre de ansiedade, depressão, fobias, muitas vezes não consegue ver uma saída sozinho e precisa de um guia que não seja um amigo conselheiro, mas alguém que, de fato, consiga conduzir à pessoa ao encontro de si mesma.

Os amigos são muito importantes em todos os momentos da vida, especialmente os mais difíceis, mas eles não substituem um terapeuta e quem acha que sim pode terminar intoxicando muito seus amigos e pessoas mais próximas com problemas e questões que essas pessoas não sabem lidar.

Imagine que você está despejando um caminhão de lama nas pessoas mais próximas e, muitas vezes, elas só ficam atoladas no meio dessa lama, sem conseguir te ajudar a limpar o caminhão ou tudo o que está em volta. Por isso, recomendo fortemente uma ajuda terapêutica. Eu certamente não teria resolvido uma série de questões se não fosse por conta de terapias. Há ainda muitas coisas para resolver, mas cada ponto escuro do meu passado que se tornou um ponto luminoso é uma grande vitória.

Aliado à terapia, o caminho do autoconhecimento também é essencial. E o autoconhecimento você alcança de diversas formas (além da própria terapia). Uma delas que tem sido particularmente eficaz para mim é a meditação.

Sinto a meditação como um momento de dar um “reboot” no cérebro e quebrar o ciclo de pensamentos negativos. Recomeçar o dia, agora com o pé direito. Porque as coisas são o que são, as situações são o que são e as pessoas também: o que muda é como lidamos com tudo isso.

A ansiedade fica rodando como um aplicativo malicioso no plano de fundo do celular, consumindo memória, energia e capacidade de processamento, fazendo tudo ficar mais lento e irritante. Com a meditação, você dá um “reboot” para começar tudo de novo (daria para dizer que a terapia é o antivírus). Para ter um bom resultado é preciso que a meditação seja praticada diariamente. Aliada à atividade física, a meditação se tornou, para mim, um compromisso diário que não posso deixar de fazer. Essas atividades, com a escrita diária, são o que tem proporcionado muito da minha sanidade mental e física.

Mas devo confessar que os pensamentos negativos ainda surgem do nada. Muitas vezes são tão vívidos, que, quando vejo, estou experimentando uma série de sensações físicas bastante desconfortáveis. Felizmente, tenho percebido isso cada vez mais rápido e já faço algo para mudar: me esforço para me concentrar no que estou fazendo ou começo uma conversa sobre algo positivo com alguém ou faço algo que gosto de fazer (que, de preferência, não inclua comer) para conseguir quebrar esse ciclo.

Ainda demoro algumas horas ou dias para perceber por que esses pensamentos começam a se tornar tão insistentes do nada. Qual é a verdadeira preocupação que está por trás deles? É importante encontrar um equilíbrio entre reconhecer os sentimentos de medo, raiva, frustração, se permitir senti-los e entendê-los, sem se perder completamente dentro deles. Às vezes, o seu corpo e a sua mente só precisam que você reconheça: sim, estou com medo dessa situação, estou chateado com o que me disseram, estou com raiva daquela pessoa, estou frustrado com esse aspecto da minha vida. E está tudo bem. Tudo faz parte. A questão é: o que vamos fazer em relação a isso?

Todo esse texto é para te dizer que tudo isso tem jeito. Quando queremos mudar, encontramos os caminhos. Mas cada um constrói a sua caminhada do seu jeito. O que serve para um não serve para outro e cada um faz o seu mosaico de soluções de uma forma unicamente bela. Não estou dizendo que mudar é fácil ou simples, não estou dizendo que tem uma fórmula mágica, porque senão estaria mentindo. É complexo e desafiador. Mas se fosse muito fácil não teria graça e não se chamaria vida.

Sobre ser grato

#partygames

Quando lamentamos o que não temos e que gostaríamos de ter, a lista não acaba nunca. Nos sentimos incapazes, tristes e frustados. Parece que todos conseguiram, menos nós. O completo oposto é celebrarmos o que, de fato, temos e pensar no quanto somos abençoados por ter cada uma dessas coisas. Como seria a nossa vida sem elas?

Seja grato/a por tudo o que você tem. Quando nos concentramos nos aspectos positivos da vida, nos sentimos mais leves, com mais forças para encarar os desafios e alcançar novas conquistas. A gratidão nos faz encarar a vida com mais contentamento, gera uma energia que atrai mais coisas positivas e nos faz passar pelos desafios com menos sofrimento e mais aprendizado.

Traçar metas para o que queremos é importantíssimo, mas igualmente importante é aproveitar cada momento dessa caminhada. Que seja uma caminhada alegre e de celebração.

Sobre o pavor de ficar em silêncio

Durante muito tempo, eu não suportava a ideia de estar sozinha sem nada para fazer. Ficar com os próprios pensamentos parecia uma perda de tempo. Então preenchia o silêncio com qualquer coisa, de preferência com falas. Ouvia rádio, músicas, podcasts, via vídeos. Também preenchia o silêncio com redes sociais e conversas em diferentes mensageiros online.

Eu dizia para mim mesma que estava maximizando o aproveitamento do dia: já que não estava “fazendo nada” no café, na hora do almoço, no transporte para casa, aproveitava para fazer algo “útil”. A verdade é que eu tinha pavor de me ver sozinha comigo mesma e com meus pensamentos. Porque se a sua vida está toda embaralhada e você precisa mudar uma série de coisas, a última coisa que você quer, num primeiro momento, é olhar para tudo isso.

Hoje eu faço caminhadas diárias de pelo menos 15 minutos e não tenho necessidade alguma de ir ouvindo música ou qualquer outra coisa no caminho. Tomo café da manhã, lanches e almoço sem escutar ou ver nada, sem tocar no celular, apenas conversando com quem está me fazendo companhia ou comigo mesma. Tomo banho e vou para lugares sem ter que ouvir música. Me abstraí da necessidade de ter que ser produtiva a todo o momento e de ter que preencher todo o silêncio que existe.

Sentar ao lado de alguém para fazer uma refeição inteira sem falar nada não é mais insuportável. Fazer uma viagem de carro sem trocar palavras com o motorista e/ou outros passageiros também não é um grande problema. Antes eu chegava a sentir um desconforto físico nessas situações, uma inquietação que começava no estômago e terminava na boca, que se abria para dizer qualquer coisa (pelo amor de Deus!). É claro que é bom conversar com quem está ao seu lado numa viagem ou numa refeição, mas não é bom ter que conversar por achar que o silêncio é desconfortável.

Algo de extraordinário acontece quando você começa a apreciar o silêncio: as pessoas encontram espaço para falar. E compartilham coisas extraordinárias, que você nunca ouviria se fosse você falando o tempo todo.

Mas não se engane, eu ainda estou engatinhando nessa questão. Eu ainda falo muito e, na maioria das vezes, falo mais do que devia. Ainda interrompo as pessoas enquanto elas falam. Chegarei no estágio de apenas fazer perguntas e deixar as pessoas contarem suas histórias e me convidarem a viajar no mundo delas. Às vezes, ainda me distraio quando alguém conta algo que eu não acho tão interessante. Com o tempo, aprenderei a achar tudo interessante e a julgar menos o que ouço também.

Ouvir o outro é uma tarefa que exige esforço para ter atenção e genuíno interesse no que está sendo dito. Ouvir sem julgar e sem oferecer soluções, apenas deixando a pessoa se reelaborar enquanto fala. É uma tarefa árdua, mas necessária e possível a todos nós.

Hoje vejo que não conseguia conviver com o silêncio, precisando preencher cada minuto com alguma atividade ou algum som, porque eu não queria me ouvir. Eu estava tentando dizer algo para mim mesma – estava gritando algo para mim mesma –, mas eu tapava os ouvidos. Tem mensagens de nós para nós mesmos que são difíceis de digerir, que nos colocam em uma caminhada longa em busca de algo que nem sabemos o que é. Mas temos que ter coragem para começar essa caminhada para o desconhecido em um caminho que vai se mostrando enquanto andamos. Deixar as coisas como estão é mais confortável, mas é mais inquietante também.